segunda-feira, 1 de maio de 2017

Guia A poesia me salvará. Falo constrangida, porque só Jesus Cristo é o Salvador, conforme escreveu um homem - sem coação alguma - atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança de Congonhas do Campo. No entanto, repito, a poesia me salvará. Por ela entendo a paixão que Ele teve por nós, morrendo na cruz. Ela me salvará, porque o roxo das flores debruçado na cerca perdoa a moça do seu feio corpo. Nela, a Virgem Maria e os santos consentem no meu caminho apócrifo de entender a palavra pelo seu reverso, captar a mensagem pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos. Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos, porque temo os doutores, a excomunhão e o escândalo dos fracos. A Deus não temo. Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida da brutalidade das coisas? Em: Prado, Adélia. Poesia Reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.

domingo, 30 de abril de 2017

Balada do Esplanada Ontem à noite Eu procurei Ver se aprendia Como é que se fazia Uma balada Antes de ir Pro meu hotel. É que este Coração Já se cansou De viver só E quer então Morar contigo No Esplanada. Eu queria Poder Encher Este papel De versos lindos É tão distinto Ser menestrel No futuro As gerações Que passariam Diriam É o hotel É o hotel Do menestrel Pra me inspirar Abro a janela Como um jornal Vou fazer A balada Do Esplanada E ficar sendo O menestrel De meu hotel Mas não há, poesia Num hotel Mesmo sendo 'Splanada Ou Grand-Hotel Há poesia Na dor Na flor No beija-flor No elevador Oferta Quem sabe Se algum dia Traria O elevador Até aqui O teu amor

sexta-feira, 29 de maio de 2015

~ Soneto 18 ~ Se te comparo a um dia de verão És por certo mais belo e mais ameno O vento espalha as folhas pelo chão E o tempo do verão é bem pequeno. Ás vezes brilha o Sol em demasia Outras vezes desmaia com frieza; O que é belo declina num só dia, Na terna mutação da natureza. Mas em ti o verão será eterno, E a beleza que tens não perderás; Nem chegarás da morte ao triste inverno: Nestas linhas com o tempo crescerás. E enquanto nesta terra houver um ser, Meus versos vivos te farão viver. Shakespeare - Sonnets 18 Shall I compare thee to a summer's day? Thou art more lovely and more temperate: Rough winds do shake the darling buds of May, And summer's lease hath all too short a date: Sometime too hot the eye of heaven shines, And often is his gold complexion dimmed, And every fair from fair sometime declines, By chance, or nature's changing course untrimmed: But thy eternal summer shall not fade, Nor lose possession of that fair thou ow'st, Nor shall death brag thou wand'rest in his shade, When in eternal lines to time thou grow'st, So long as men can breathe or eyes can see, So long lives this, and this gives life to thee. William Shakespeare
~ Soneto 15 ~ Quando penso que tudo o quanto cresce Só prende a perfeição por um momento, Que neste palco é sombra o que aparece Velado pelo olhar do firmamento; Que os homens, como as plantas que germinam, Do céu têm o que os freie e o que os ajude; Crescem pujantes e, depois, declinam, Lembrando apenas sua plenitude. Então a idéia dessa instável sina Mais rica ainda te faz ao meu olhar; Vendo o tempo, em debate com a ruína, Teu jovem dia em noite transmutar. Por teu amor com o tempo, então, guerreio, E o que ele toma, a ti eu presenteio. When I consider every thing that grows Holds in perfection but a little moment, That this huge stage presenteth nought but shows Whereon the stars in secret influence comment; When I perceive that men as plants increase, Cheered and cheque'd even by the self-same sky, Vaunt in their youthful sap, at height decrease, And wear their brave state out of memory; Then the conceit of this inconstant stay Sets you most rich in youth before my sight, Where wasteful Time debateth with Decay, To change your day of youth to sullied night; And all in war with Time for love of you, As he takes from you, I engraft you new.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

NOÇÕES - CECÍLIA MEIRELES

Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a. Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, e este abandono para além da felicidade e da beleza. Ó meu Deus, isto é minha alma: qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Tu eras também uma pequena folha. Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vida pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.

quinta-feira, 15 de março de 2012

TERCETOS - DANTE MILANO

TERCETOS

Eu sou um rio, a água fria de um rio.
Profundo, cabe em mim todo o vazio.
Um reflexo me causa calafrio.

Sou uma pedra de cara escalavrada,
Uma testa que pensa, e sonda o nada,
Uma face que sonha, ensimesmada.

Sou como o vento, rápido e violento,
Choro, mas não se entende o meu lamento.
passo e esqueço meu próprio sofrimento.

Sou a estrela que à noite se revela,
O farol que vê longe, o olhar que vela,
O coração aceso, a triste vela.

Sou um homem culpado de ser homem,
Corpo ardendo em desejos que o consomem,
Alma feita de sonhos que se somem.

Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta,
Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:
Significação grande, mas secreta.".